Se eu não pensar na minha reforma, quem pensará?

Filipe Charters de Azevedo



De acordo com os estudos internacionais, a grande maioria dos portugueses acredita que os idosos “vivem mal”. Acreditam ainda que cabe ao governo a responsabilidade de os acudir. Contudo, apesar dessa definição clara de responsabilidades, os mesmos portugueses não confiam muito nas entidades públicas e, a avaliar pelos mesmos dados, duvidam da eficácia das medidas públicas de ajuda aos mais velhos. Para complicar, também não se confia muito nos amigos e vizinhos. Somos assim, nós os portugueses, uma sociedade individualizada e descrente no apoio ao próximo, mas que também não age para mudar as coisas, sobretudo para garantir a sua reforma (apenas com a crise, a poupança parece estar a aumentar).
Os dados são da European Social Survey que tem como um dos seus principais objectivos monitorizar as mudanças nas atitudes e nos valores sociais em vários países europeus. Os dados referem-se a 2008 e podem ser analisados na íntegra na Internet.
De um ponto de vista formal, quando confrontados com a questão sobre se pertence ao Governo a responsabilidade de cuidar do nível de vida dos mais velhos, numa escala de “0” a “10”, onde “0” significa que "não é da responsabilidade do governo" e “10” que tal é inteiramente da responsabilidade do Governo”, 85% portugueses dão nota superior a “8”. Apesar de a responsabilidade ser do Governo, a verdade é que mais de 90% afirmam que esse mesmo nível de vida é mau ou extremamente mau...
Para agravar este cenário de dificuldade, estes mesmos portugueses apresentam uma das maiores taxas de desconfiança face aos concidadãos. Na mesma escala de “0” a “10”, a nossa média de confiança no vizinho é de "4", enquanto em Espanha é de “5”, e nos países escandinavos é de “7”.
Mais, apenas 7% dos nacionais contactaram um político/entidade governamental no último ano, 3% trabalharam numa organização social e 5% assinaram uma petição – níveis de participação cívica piores do que estes apenas são encontrados na Bulgária ou em alguns países do leste europeu.
A única forma de melhorar esta situação será provavelmente mudarmos os nossos valores e a forma como estamos organizados. No curto prazo, e tendo em conta o estado das finanças públicas, creio que caberá a cada um de nós fazer a diferença – ajudando o próximo, cumprindo as nossas obrigações sociais, pagando impostos, exigindo facturas, preenchendo os livros de reclamações, etc e, pensando agora nesta lógica individualizada em que vivemos, começar a poupar e a pensar a reforma.


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